Críticas

Pão Doce: quando trabalhar significa não ter tempo para viver

No 54º Festival de Cinema de Gramado, Pão Doce conquistou dois Kikitos: Melhor Direção, para Wesley Gabriel, e Melhor Ator, para Francisco Gaspar. Os prêmios chamam atenção para um curta que parte de uma questão extremamente contemporânea e urgente, mas ainda pouco explorada pela ficção brasileira: os impactos da escala 6×1 na vida de quem trabalha sob uma lógica que parece deixar cada vez menos espaço para simplesmente viver.

Há uma urgência social que, apesar de ocupar cada vez mais espaço no debate público brasileiro, ainda aparece pouco nas telas quando pensamos na ficção: os impactos da escala 6×1 sobre trabalhadores que veem a própria vida ser engolida pelo trabalho. Em Pão Doce, Wesley Gabriel parte justamente desse lugar para falar não apenas sobre uma jornada exaustiva, mas sobre algo ainda mais profundo: o que acontece quando uma pessoa já não possui tempo suficiente para exercer seus afetos, cuidar das próprias relações ou simplesmente existir para além da função que desempenha.

Acompanhamos Fernando, interpretado por Francisco Gaspar — atuação que lhe garantiu o Kikito de Melhor Ator no 54º Festival de Cinema de Gramado. Padeiro, ele tem sua rotina completamente absorvida pelo trabalho. Sob o comando de um patrão que administra o negócio a partir de uma lógica de produtividade e maximização dos lucros, os funcionários são progressivamente colocados em segundo plano. Horários excessivos, demandas que ultrapassam os limites da jornada e uma disponibilidade praticamente integral transformam aquilo que deveria ser trabalho em uma espécie de apropriação da vida.

Wesley Gabriel, vencedor do Kikito de Melhor Direção, tem nas mãos uma massa delicada: um tema urgente, reconhecível e carregado de possibilidades discursivas que, diante da menor distração, poderia resultar em um filme excessivamente didático ou em um “pão duro”. Trocadilhos à parte, felizmente não é o que acontece. Gabriel dirige com maturidade e, principalmente, confia no poder da própria história. Não há necessidade de sublinhar aquilo que as imagens, relações e corpos já são capazes de comunicar.

É justamente essa ausência de grifos desnecessários que estabelece uma relação tão horizontal entre Pão Doce e o público. Sabemos do que o filme está falando. Mesmo quem nunca esteve exatamente naquela padaria provavelmente já viveu alguma situação semelhante ou conhece alguém cuja rotina tenha sido atravessada pela mesma lógica. O curta não precisa explicar a precarização do trabalho porque permite que ela seja percebida naquilo que retira de Fernando aos poucos: seu tempo, disponibilidade, afetos e, em alguma medida, sua própria autonomia.

Nesse sentido, a exibição do curta metragem durante o  54º Festival de Cinema de Gramado ganhou uma camada particularmente interessante. O filme foi apresentado diante de uma parcela de público que ocupa posições capazes de pensar, administrar e interferir diretamente nas relações de trabalho que sustentam estruturas como a apresentada em tela. O encontro entre filme e plateia acaba ampliando sua dimensão política: Pão Doce não fala de uma realidade distante ou abstrata, mas de milhares de trabalhadores e famílias afetados diretamente por jornadas que determinam não apenas quanto se trabalha, mas quanto da vida ainda resta depois do trabalho.

E é importante dizer que a força do curta não fica restrita à relevância de sua pauta. Pão Doce se sustenta cinematograficamente, há segurança na condução de Wesley Gabriel e uma compreensão de que a dimensão política da narrativa ganha potência justamente quando encontra forma, ritmo e personagem. O discurso não antecede Fernando, mas nasce da experiência dele.

Francisco Gaspar compreende isso muito bem. Sua atuação é construída no conflito entre a doçura e a humildade do personagem e o peso acumulado de quem é oprimido cotidianamente. Há algo de progressivo em sua composição: Fernando não precisa verbalizar constantemente aquilo que sente porque o desgaste começa a habitar seu corpo. O cansaço deixa de ser apenas físico e passa a interferir na maneira como ele se relaciona com o mundo. É uma interpretação que encontra potência justamente naquilo que evita exteriorizar em excesso — e o Kikito recebido em Gramado reconhece essa precisão.

Vinícius de Oliveira funciona como um contraponto importante na figura do patrão. Suas entradas são pontuais, mas cortantes. Ele não precisa transformar o personagem em uma caricatura monstruosa para que a violência dessa relação seja compreendida. Ao contrário, é justamente a naturalização de determinados comportamentos que torna sua presença mais incômoda. Cada aparição funciona como uma flecha que atravessa tanto a trajetória de Fernando quanto as consequências psicológicas provocadas por aquele ambiente.

Dito isso, a maior qualidade de Pão Doce está em entender que discutir a escala 6×1 é falar sobre trabalho, mas é também — e sobretudo — falar sobre tempo. E tempo significa convivência, descanso, desejo, família, amor, presença. Quando uma jornada de trabalho ocupa quase integralmente a existência de alguém, não é apenas o corpo que está sendo explorado: é a possibilidade dessa pessoa construir uma vida para além dele.

Ao evitar o panfleto e o didatismo, Wesley Gabriel encontra uma forma mais potente de fazer política através do cinema. Pão Doce não precisa dizer ao espectador o que pensar porque cria condições para que ele reconheça aquela realidade, e desse reconhecimento nasce sua conexão com o filme. No fim, o curta fala sobre uma reivindicação que deveria ser elementar: trabalhar para viver não pode significar deixar de ter tempo para viver.

Que pão doce espalhe seu amargor doce pelo maior número de telas possível.

Filme assistido durante o 54º Festival de Cinema de Gramado.

Confira a entrevista com diretor e elenco:

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